AGRICULTURA NÃO É MATEMÁTICA

por Dib Nunes Jr.

dib@ideaonline.com.br

Considero muito importante tratar agricultura como negócio e o produtor pensar como empresário, porém há limites a serem respeitados, onde a economia e as necessidades básicas da agricultura precisam estar equilibradas.

O agricultor empresário necessita estar atento aos pontos de estrangulamento da produção, sabendo dosar os seus investimentos. Em suas análises, quando  as diversas atividades são colocadas em planilhas, os gastos devem ser devidamente apurados e seus limites previamente estabelecidos.

Em períodos de “vacas magras”, a tendência dos empresários é cortar custos para melhorar o caixa da empresa e reduzir gastos em todas as etapas do sistema produtivo.

Quando os preços dos produtos finais não atingem níveis mínimos necessários para remunerar o empresário-agricultor, a primeira atitude do mesmo é cortar nas atividades de maior demanda financeira e enquadrar o orçamento para dentro das margens desejadas pelos acionistas e investidores.

É nesse momento que podem ocorrer cortes sem critérios de investimentos e de gastos em todos os setores, gerando grandes problemas para as empresas no futuro. Temos que cortar “na carne”, diria o executivo, “pois é a única forma de sobreviver à crise”, frase famosa esta.

Na agroindústria sucro energética brasileira, os problemas de falta de liquidez e alto endividamento começaram a se agravar em 2008, quando aos preços do etanol (principalmente) e do açúcar despencaram, justamente no momento em que os empresários do setor estavam investindo pesado em novas unidades produtoras, aproveitando um virtuoso ciclo de bons preços  e de crédito fácil que se iniciou em 2004.

A chegada de novos grupos investidores ao Brasil, logo identificou, no setor sucro energético oportunidades de investimento. Hoje sabemos que, pelo menos, o equivalente a 50% da capacidade produtiva das usinas, receberam aportes financeiros amarrados a uma “nova” gestão financeira, voltada para o lucro rápido e o retorno imediato do capital investido.

As planilhas de custos passaram a ser o norte das empresas e os novos gestores se atiraram de corpo e alma à “caça às bruxas” do elevado custo de produção e das baixas margens de lucro, que a maioria absoluta das usinas/destilarias está apresentando.

Como números no papel podem ser manipulados e refeitos à vontade, os equívocos começaram a surgir. As atitudes mais comuns dos “planilheiros” de plantão, que trariam resultados rápidos ao fluxo de caixa foram:

  • Corte nos investimentos em ampliação e reforma dos canaviais.
  • Corte nos tratos culturais, principalmente na adubação.
  • Corte nas manutenções e nos projetos de modernização das indústrias.
  • Terceirização das atividades operacionais, repassando os altos custos aos incautos terceiros que também foram com muita “sede ao pote” pensando que obteriam uma fatia do “lucro fácil” das usinas.
  • Redução de investimentos em novas tecnologias de produção.
  • Dispensa de funcionários com alta especialização devido aos salários mais elevados.
  • Atraso nas compras de suprimentos gerando caixa, mas paralisando atividades operacionais.
  • Sub valorização dos gastos em todas as etapas de produção.
  • Atraso no pagamento de fornecedores de cana e aos arrendantes de terras.
  • Busca de novos financiamentos (mais endividamento) e de novos investidores para dar um folego ao caixa da empresa.
  • Choque de gestão nas usinas, tirando o foco da produção com qualidade para colocar o foco na redução nos custos de produção.

As empresas apontaram de imediato, saldos positivos em seus caixas, o que representaria a salvação das mesmas, pois o setor, agora sim, estava tomando rumo certo.

Entretanto, o resultado foi exatamente o inverso: os canaviais perderam rapidamente suas produtividades e, com isso, os custos de produção foram para as nuvens. Transformaram o “príncipe em sapo”, sendo que hoje o Brasil tem um dos custos de produção de cana de açúcar mais elevados do mundo. Perdemos competitividade e o nosso açúcar e principalmente o etanol hidratado perdeu mercado.

A agricultura não é uma ciência exata e quando os cortes visam somente resolver problemas de caixa em curto prazo, reflexos negativos podem surgir rapidamente. Quando se corta o básico, sem critérios e ocorre um desprezo pela técnica e pela lei dos mínimos necessários para termos uma satisfatória produtividade agrícola, as perdas ocorrem em série, umas em consequência das outras, num enorme efeito dominó. As empresas passam ao processo de extrativismo agroindustrial ao tentar tirar o máximo sem investimentos mínimos.

Para reverter este quadro, a demanda por investimentos será muito maior nos anos subsequentes.

As consequências desta atitude são o sucateamento das indústrias e o envelhecimento das lavouras, com quedas sucessivas de produtividade e rendimentos.

Grande parte das usinas vive, ainda hoje, do extrativismo do que restou. Algumas resolveram vender a sua cana para a usina vizinha e dispensar todo mundo. Isto está acontecendo principalmente com quem só produz etanol hidratado.

O etanol necessita de uma política especial que envolva os players de mercado para obter acordos comerciais de longo prazo, do importantíssimo apoio governamental que precisa elaborar uma política que dê estabilidade ao setor, do socorro do BNDES e, principalmente, da participação dos gestores com bom senso que respeitem as exigências mínimas da cultura.

O setor sucro energético precisa urgentemente de uma profunda reflexão e ações de longo prazo que deem sustentabilidade ao sistema produtivo. Caso contrário o nosso combustível limpo e renovável ficará perto do fim.

As planilhas são excelentes meios para análises e tomadas de decisões coerentes, porém nunca devemos deixar de ouvir os técnicos e administradores mais experientes.

Lembrem-se, o papel aceita tudo, mas a agricultura não.

A agricultura depende do bom senso e da natureza. Tem riscos enormes em todas as suas fases. Uma boa planilha para análises de custos ajuda muito, mas não resolve  os problemas operacionais e tecnológicos. Afinal, a agricultura não é e nunca será matemática. Que pena, né?

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One response to this post.

  1. Posted by Cesar Pereira on 21/11/2012 at 20:07

    DIB , PARABÉNS POR ESTE ARTIGO É PURA REALIDADE !!!! ESTAS FRASES ABAIXO RESUMO TUDO!!!

    “As planilhas são excelentes meios para análises e tomadas de decisões coerentes, porém nunca devemos deixar de ouvir os técnicos e administradores mais experientes”

    “Lembrem-se, o papel aceita tudo, mas a agricultura não”.

    Resposta

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